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BOM SEXO EXIGE 'TRABALHO', PRIORIDADE E TEMPO Imprimir mensagem

enviado por ANÔNIMO em 27/7/2010 15:48:29

Aspas Saiba como a própria história da sexualidade causou a banalização e a falta de tempo para o sexo

Por Marisa Micheloti

Nos dias de hoje não existem queixas mais freqüentes que falta de tempo e de sexo. Costumo até brincar dizendo que atualmente procura-se mais sexo e tempo para tudo, do que petróleo.

Na história da sexualidade o relacionamento do homem e da mulher estava focado em hábitos culturais. O papel feminino foi sendo desenvolvido mediante a designação do papel masculino unido ao monopólio ideológico cristão e à ética. As relações de poder dos homens determinavam a função de submissão feminina e ambos estavam destinados a realizar suas tarefas.
Dessa forma, estava evidentemente caracterizada a relação assimétrica: homens mandam, mulheres obedecem. Homens pagam, mulheres educam. Os homens têm desejo e as mulheres devem fazer sua função de satisfazê-los.

Com a revolução feminista, as manifestantes começaram a reagir ao ato de violência imposto às mulheres e os papéis que elas desenvolviam foram multiplicados, já que não eram suficientes para nutrir seus desejos.

Nada de muito novo até então, podendo entender-se perfeitamente que era a única maneira das mulheres se posicionarem como cidadãs potentes, capazes de exercer a intelectualidade, de amar e de sentir desejos a partir de um referencial próprio. Foram movimentos dolorosos e as mulheres precisaram exercer atitudes drásticas para poder criar condições de ocupar um espaço em uma sociedade maior.

Somente a liberdade não é suficiente para que a vida tome um rumo. Tornam-se necessários percorrer caminhos em busca de uma construção sociológica, dos estudos de gênero e da reconstrução dos novos papéis masculino e feminino.

Se o homem perdeu o poder público, que parecia tão desejado, provavelmente ficou impotente e desgovernado em uma série de atitudes e precisou mergulhar em um campo muito desconhecido: o das emoções. Já as mulheres perderam o poder do lar, começaram a ganhar espaços sociais e profissionais. O poder social precisou aprender a exercê-lo com pessoas que não fossem os homens, pois não suportariam ser mulheres aprendizes de homens. Precisaram exercer as novas atividades com outras mulheres, porém nenhuma delas tinha a menor experiência disso e buscavam seus lugares e posições como verdadeiras guerreiras iniciantes.

Há quem diga que os homens estavam satisfeitos com a sociedade paternalista, que determinava a eles a função de poderosos. Sem dúvida são tradições culturais estabelecidas há milênios sob essa ótica, que demorarão muitos anos para serem reparadas. Acredito mais na idéia de que os homens puderam ser beneficiados quando começaram a ter a possibilidade de exercer outros papéis, de se reconhecer como homens e reconhecer seus sentimentos. Aquelas funções têm aspectos arcaicos e monótonos e, essa mudança cria uma revolução masculina com chance de desenvolvimento de um homem muito melhor.

Se homens e mulheres continuassem exercendo suas identidades de gênero daquela maneira tão preestabelecida, não conseguiriam ter uma globalização tão diversificada pelos ricos e diferentes olhares do homem e da mulher. A sociedade ganhou muito com isso, aprendeu..., e vem tentando amadurecer essa idéia.

Hoje estamos buscando quebrar as máscaras da impenetrabilidade entre homens e mulheres, criando caminhos de possíveis encontros. Não vejo isso como um prejuízo, mas como um feliz acréscimo para as relações afetivas.

Porém, temos que lidar com os medos generalizados. Medo de amar, medo de perder, medo de envelhecer, medo de fracassar, medo de não estar correspondendo ao parceiro na relação sexual, medos, medos, medos, infinitos medos, que são responsáveis pela quebra da espontaneidade.
Insegurança sexual

A auto-crítica é uma característica persistente e muitas vezes cruel. Percebe-se isso quando poderosas mulheres chegam ao consultório questionando se transar uma vez por semana está errado, se não ter desejo quando chega do trabalho significa que o casamento acabou; e homens que não conseguem ejacular mais que uma vez, preocupam-se com a performance, se não sentem desejo em algum assédio feminino, perguntam se devem fazer uma terapia sexual.
Fala-se de sexo com aparente domínio, mas muitas pessoas têm vergonha de não corresponder ao mito social. A verdade é que as pessoas têm muito pouco conhecimento de seus desejos, limites e é destinado muito pouco tempo para a sexualidade humana e a sexualidade passa a ter um caráter de banalização.

A sexualidade precisa ser cuidada, pensada e necessita de tempo para fantasiar, desejar e construir um relacionamento carinhoso. Não há receitas de como realizar tarefas sexuais, as pessoas devem se ajudar e ter apenas coragem de se descobrir como seres naturalmente sexualizados.

Sexualidade não é um aspecto para fazer parte de um campo tenso, ao contrário, é uma proposta de entrega na qual o sentimento de medo deve ser delicadamente trocado pela aceitação. Homens e mulheres precisam poder cortejar e, sem dúvida, sexo demanda tempo.

Marisa Micheloti
Psicóloga, psicodramista, educadora sexual, coordenadora do Gender Group do Serviço de Psicoterapia do Instituto de Psquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo
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