
Sábado passado foi ao ar no programa "Mistura Universitária" da Rádio CBN - Vitória uma entrevista minha sobre chocólatras e sua compulsão por chocolate. Segue a integra da entrevista:
O que faz o chocolate se tornar um alimento que serve de refúgio para pessoas com problemas emocionais?O chocolate possui uma série de substâncias químicas, herdadas de sua matéria-prima o cacau, que são estimulantes do sistema nervoso central. Uma dessas substâncias é o magnésio, que atua na produção da serotonina e da dopamina, neurotransmissores relacionados com a sensação de euforia, prazer e bem-estar; outra substância e a feniletilamina que atua na sensação de saciedade após a refeição e, segundo alguns estudos, é liberada em grandes quantidades por uma pessoa apaixonada (isso explica porque quando estamos apaixonados tendemos a perder o apetite); a feniletilamina também produziria a sensação agradável que os apaixonados sentem e isso estaria relacionado com o fato de uma desilusão amorosa ser muitas vezes “compensada” pelo consumo de chocolate.
Outras substâncias psicoativas encontradas no chocolate são a cafeína e uma substância análoga aos canabinóides que produzem efeitos similares a alguns produzidos pela maconha, a euforia, por exemplo. Assim, um indivíduo deprimido poderia busca no chocolate um alívio para a tristeza. Além disso, essas substâncias por si só poderiam aumentar as propriedades sensoriais agradáveis do chocolate como o sabor, o aroma e a textura do doce.
No entanto, é bom enfatizar que os efeitos do chocolate por si só, que são decorrentes das substâncias que ele contém, não explicam o seu uso como “refúgio emocional”. É preciso considerar também as propriedades reforçadoras do chocolate tais como a satisfação pessoal que o alimento causa, aliadas à combinação de açúcar e gordura, que são altamente apetitivos, com o seu sabor. Além disso, os fatores de predisposição e sensibilidade individuais contribuem para a predileção por chocolate. Ou seja, nem todas as pessoas com problemas emocionais terão no chocolate um remédio eficaz.
Como o chocolate influencia o comportamento de uma pessoa?Dada as suas particularidades, os efeitos desejados do chocolate são percebidos imediatamente. Isso é um fator importante para a manutenção do vício ou compulsão em comê-lo. Não há indícios de que o chocolate causa o que chamamos dependência fisiológica, aquela que empurra o indivíduo ao consumo exagerado de uma substância para diminuir uma sensação, geralmente orgânica, desagradável. Um exemplo de substância que pode causar dependência fisiológica é o álcool.
O chocolate, no entanto, pode produzir o comportamento compulsivo por gerar, em algumas pessoas, uma sensação agradável logo após o seu consumo. Neste caso, atribui-se o "vício", ou o uso compulsivo, à estreita relação do consumo de chocolate com seu efeito psicológico agradável (euforia, bem-estar, satisfação, etc.). É o que chamamos de “dependência psicológica”. Para você ter uma idéia, cerca de 75% dos compulsivos por chocolate relatam que nada o substitui. Este fato nos dá indícios de que as características sensoriais do chocolate são mais importantes para a manutenção da compulsão do que os efeitos das substâncias nele contidas.
Vale salientar que a dependência psicológica pode ser tão prejudicial quanto a dependência fisiológica, pois ambas tornam o indivíduo incapazes de levar uma vida normal sem que precisem usar certos artifícios compensadores. Isso por si só justifica o cuidado. Pessoas que não conseguem dormir e saem de madrugada ou em dias de chuva para comprar chocolate, aqueles que se desesperam quando o chocolate acaba ou que comem escondido para não ter que repartir com outras pessoas são alguns exemplos de que o chocolate adquiriu uma dimensão exagerada na vida do indivíduo.
O que faz uma pessoa ser considerada chocólatra?O chocólatra, segundo o senso comum, é um viciado em chocolate, e como todo viciado, possui uma compulsão, isto é, uma tendência a consumir chocolate de forma freqüente e muitas vezes exagerada. Na forma branda uma compulsão não indica necessidade de ajuda especializada. Entretanto, é bom ficar de olho e tentar perceber se a compulsão não está tomando uma dimensão maior na vida da pessoa. Alguns aspectos que devem ser levados em conta para se avaliar a compulsão são os seguintes:
a) A pessoa pensa frequentemente em chocolate?
b) É necessário consumir chocolate para que algum mal-estar emocional ou sentimento indesejável não ocorra?
c) Já trocou algum outro vício (p.ex., cigarro, bebida ou drogas) pela compulsão por chocolate?
d) A pessoa não consegue aderir a dietas em função do desejo de comer chocolate?
e) Quando fica sem chocolate a pessoa se sente irritada ou deprimida?
f) Procura se recompensar comendo chocolate?
Respostas afirmativas a estas perguntas podem indicar uma necessidade de atenção especializada.
Existe algum tratamento específico para pessoas que fazem uso exagerado do chocolate?Bom, primeiramente não devemos considerar todo chocólatra um dependente que deve ser tratado. Como eu disse, o tratamento só deve ser indicado caso haja uma intensificação da compulsão. Nestes casos, o tratamento é semelhante ao usado para dependentes em jogos, nicotina ou cocaína, por exemplo. O tratamento com o uso de antidepressivos aliados à psicoterapia do tipo cognitivo-comportamental tem eficácia na maioria dos casos que envolvem dependência psicológica.